Homebrew da Sega hoje: Master System, Game Gear e Mega Drive
Os consoles da Sega dos anos 1980 e 1990 nunca pararam de ganhar jogos. Muito depois de os últimos cartuchos oficiais saírem das fábricas, gente apaixonada continuou estudando o Master System, o Game Gear e o Mega Drive, e hoje os três têm cenas homebrew pequenas e ativas, com concursos anuais e ferramentas modernas que tornam possível uma pessoa sozinha terminar um jogo completo. Este guia explica o que o hardware consegue fazer, como se faz homebrew para ele hoje, por que a cena da Sega é diferente da do NES e da do Game Boy e quais jogos da Sega na FredyGames experimentar primeiro. Todos rodam no navegador.
Três máquinas, duas famílias
Os consoles da Sega dessa época se dividem em duas famílias. O Master System e o Game Gear compartilham praticamente o mesmo projeto de 8 bits, enquanto o Mega Drive é uma máquina de 16 bits que ainda carrega os chips antigos por dentro.
Master System
O console apareceu primeiro no Japão, em 1985, como Sega Mark III, e uma versão redesenhada chegou ao Ocidente como Master System em 1986. Ficou atrás do NES na América do Norte e no Japão, mas foi bem na Europa, e no Brasil virou um favorito de vida longa: a Tectoy, parceira da Sega por aqui, continuou vendendo versões dele por muitos anos depois de ele sumir das lojas no resto do mundo. Muita gente no Brasil cresceu com um Master System ligado na TV.
O hardware, em resumo:
- Um processador Zilog Z80 a cerca de 3,5 MHz, da mesma família de CPUs de 8 bits usada em computadores como o MSX.
- 8 KB de RAM de trabalho e 16 KB de memória de vídeo.
- Uma imagem de 256×192 montada com tiles de 8×8 numa camada de fundo com rolagem, mais até 64 sprites, no máximo oito na mesma linha.
- Cores generosas para um 8 bits. Cada tile pode usar 16 cores, escolhidas numa paleta de 64, e até 32 cores aparecem na tela ao mesmo tempo. No NES, um tile de fundo tem só três cores mais uma cor de fundo compartilhada, e por isso os gráficos do Master System muitas vezes parecem mais ricos.
- Som simples. Um gerador de som programável oferece três canais de onda quadrada e um de ruído. No Japão também havia um chip de som FM, mas a maior parte dos homebrews usa o chip padrão.
O controle tem um direcional e dois botões, chamados 1 e 2. Não existe Start no controle: o botão Pause fica no próprio console, e é por isso que alguns jogos o usam de jeitos inesperados.
Game Gear
O Game Gear, lançado em 1990 no Japão e no ano seguinte no Ocidente, é quase um Master System portátil. Usa o mesmo processador e uma versão ampliada do mesmo chip de vídeo, mas a tela colorida mostra uma janela de 160×144 da imagem, e as cores saem de uma paleta bem maior, de 4.096. Ele também tem um botão Start no aparelho e som estéreo no fone de ouvido. Levar um jogo de um para o outro é, em grande parte, uma questão de encaixá-lo na janela menor.
Mega Drive, ou Genesis
O Mega Drive chegou ao Japão em 1988 e à América do Norte em 1989, onde foi vendido como Genesis. A Europa, o Brasil e a maioria dos outros mercados ficaram com o nome Mega Drive, que é o que usamos no site, mas os dois nomes se referem ao mesmo console. Aqui também foi a Tectoy que o trouxe.
- Um processador Motorola 68000 a cerca de 7,6 MHz, um projeto de 16 bits (32 por dentro) que também equipou computadores como o Amiga e os primeiros Macintosh.
- Um Z80 como segundo processador, normalmente dedicado ao som. É a mesma CPU do Master System, e com um adaptador o Mega Drive rodava cartuchos de Master System.
- 64 KB de RAM de trabalho e 64 KB de memória de vídeo.
- Uma imagem normalmente de 320×224 pixels, com dois planos de fundo com rolagem, uma camada fixa de "janela" para barras de status e até 80 sprites.
- Quatro paletas de 16 cores, escolhidas entre 512. Trabalhar dentro desse limite molda o visual de muitos jogos de Mega Drive.
- Som FM. Um chip de síntese FM da Yamaha, com seis canais, fica ao lado de um gerador de som no estilo do Master System. Juntos, eles dão ao console aquele som encorpado e metálico.
O controle original tem três botões de ação, A, B e C, mais o Start. Um controle de seis botões, lançado depois, acrescentou X, Y e Z e um botão Mode, e alguns jogos, homebrews inclusive, usam esses botões.
Como se faz homebrew da Sega hoje
Há gente programando para o hardware da Sega desde o fim dos anos 1990, e o site comunitário SMS Power! está no centro do lado 8 bits durante quase todo esse tempo. Ele reúne documentação, ferramentas, um grande acervo de homebrews e um concurso de programação realizado todo ano. Muitos dos jogos de Master System da FredyGames foram escritos para esse concurso.
As ferramentas se dividem em três grupos:
- SGDK é um kit de desenvolvimento gratuito para o Mega Drive criado por Stephane Dallongeville. Ele junta um compilador C para o 68000 com bibliotecas de sprites, mapas de tiles, controles e som, de modo que dá para escrever um jogo inteiro em C. É muito usado hoje, e três dos nossos jogos foram feitos com ele: KłełeAtoms MD, Minesweeper MD e Lock and Toad.
- devkitSMS é um conjunto de bibliotecas e ferramentas em C para o Master System e o Game Gear, usado com o compilador SDCC. Ele cuida do chip de vídeo, dos controles e da música, e deixou o desenvolvimento para os 8 bits da Sega muito mais acessível. Dragon Blaster, Food Fighter, Geometry Blaster, Land on My Base, Primates e Raposa do Sol foram todos feitos com ele. O GBDK-2020, kit mais conhecido pelo Game Boy, também gera jogos de Master System e Game Gear: o quebra-cabeça 225, de Game Gear, é um exemplo.
- Assemblers continuam populares entre quem quer controle total. No lado 8 bits são comuns assemblers de Z80 como o WLA DX, e no Mega Drive se usam assemblers de 68000 como o vasm, com o qual Retail Clerk '89 foi montado.
O som merece atenção especial no Mega Drive, porque o chip FM é poderoso mas trabalhoso. Drivers de som da comunidade fazem a parte difícil: Retail Clerk '89 usa o driver Echo e Miniplanets REMIX usa o Sona, ambos escritos por Javier Degirolmo (Sik), que também é o autor de Miniplanets.
O que a cena da Sega tem de diferente
Quem leu os nossos guias de homebrew de NES e de homebrew de Game Boy vai notar algumas diferenças.
C é uma escolha confortável. No NES, o desenvolvimento tradicional é em assembly de 6502, e C naquele processador é possível, mas desajeitado. O 68000 do Mega Drive é um ótimo alvo para um compilador C, e até o Z80 lida bem o bastante com C para muitos jogos. Isso abre a porta para programadores vindos de outras áreas.
Mais cores por tile. Dezesseis cores por tile no Master System, e quatro paletas de 16 no Mega Drive, dão aos artistas mais espaço do que o NES ou o Game Boy original.
Uma comunidade menor e próxima. As cenas da Sega são menores que a do Game Boy, e boa parte da atividade gira em torno de poucos lugares e eventos de longa data, como o concurso da SMS Power!. Os mesmos nomes aparecem várias vezes no nosso catálogo.
Cartuchos comerciais são comuns. Vários dos homebrews modernos de Mega Drive mais conhecidos são vendidos em cartucho e não têm licença livre. É um jeito justo de bancar o trabalho, mas os deixa fora deste site. Tudo na FredyGames foi lançado pelo autor sob uma licença que permite redistribuir, inclusive com uso comercial; o guia sobre como verificamos as licenças explica as regras.
Um passeio pelos nossos jogos de Master System
Todos estão na página da plataforma Master System.
- Dragon Blaster, de Haroldo O. Pinheiro, é uma corrida por pontos de um minuto: voe com um pequeno dragão, pegue esferas de raio, fogo e vento e combine duas delas num tiro mais forte antes que um dragão esqueleto tome conta do céu.
- Gravity Beam: Master Gaiden, de Mathew Carr, é um jogo de voo em cavernas com uma reviravolta: prenda uma frágil bomba nuclear num raio gravitacional e arraste-a para fora das cavernas de Marte sem deixá-la bater nas paredes.
- Primates, de Will Britton, é um duelo de artilharia entre dois macacos que atiram bananas explosivas por cima dos prédios de uma cidade, contra o computador ou contra um amigo no mesmo teclado.
- Land on My Base, também de Will Britton, e Lander 2, de jmimu, são duas versões do clássico módulo lunar: uma com um marcador de empuxo que gira e um vento solar, a outra com propulsores laterais que empurram o foguete para o lado oposto.
- Raposa do Sol, de tibonev, é um arcade de uma tela só em que você recolhe satélites sob o fogo de torretas, com uma campanha de dez fases e um modo aleatório sem fim.
O nosso jogo de Game Gear
225, de Pineberry Fox, está na página da plataforma Game Gear. É um quebra-cabeça deslizante de 15 peças em que cada peça é, ela mesma, outro quebra-cabeça de 15 embaralhado: 225 peças ao todo. Não tem texto nenhum e foi pensado para ser jogável sem distinguir cores. Nasceu no Game Boy e depois ganhou versões para as duas máquinas de 8 bits da Sega, feitas pela mesma pessoa.
Um passeio pelos nossos jogos de Mega Drive
Todos estão na página da plataforma Mega Drive.
- Miniplanets REMIX, de Sik, é um jogo de plataforma em planetinhas redondos que se curvam sob os seus pés: andando o bastante numa direção, você volta ao ponto de partida. A edição REMIX é uma reforma de 2022 do original de 2016, e o jogo inteiro, recursos incluídos, está sob a licença zlib.
- Lock and Toad, da Safety Stoat Studios, é Sokoban com tiroteio: empurre cada bloco até o seu alvo enquanto drones, torretas e irrigadores enchem a sala de balas. Trinta salas, uma fase bônus e um chefe.
- Retail Clerk '89, de Hugues Johnson, é um jogo de história curto passado num shopping em dezembro de 1989. Você atravessa oito dias de movimento de Natal conversando com todo mundo, e as suas escolhas levam a um de três finais.
- KłełeAtoms MD, de Nightwolf-47, é um jogo de estratégia de reações em cadeia para até quatro jogadores, humanos ou do computador, e Minesweeper MD, do mesmo autor, traz o clássico campo minado para o console, com uma tabela de melhores tempos salva no cartucho.
- Alex vs Bus: The Race, de Alexandre Almeida, é um jogo de corrida com um objetivo bem comum: pegar o ônibus antes que ele vá embora. É software livre sob a GPL, e hospedamos o código-fonte junto.
Como jogar aqui
Os jogos de Master System e Game Gear rodam no Gearsystem, e os de Mega Drive no ClownMDEmu, ambos compilados para WebAssembly. Clique em Jogar na página do jogo e o cartucho liga em poucos segundos.
| Tecla | Master System / Game Gear | Mega Drive |
|---|---|---|
| Setas | Direcional | Direcional |
| Z | Botão 1 | A |
| X | Botão 2 | B |
| C | — | C |
| A / S / D | — | X / Y / Z (controle de seis botões) |
| Enter | Pause (Master System), Start (Game Gear) | Start |
| Shift | — | Mode |
| F2 / F4 | salva / carrega um estado | salva / carrega um estado |
Algumas dicas práticas:
- Enter é o botão Pause do Master System, que fica no console e não no controle. A maioria dos jogos só pausa, mas nem todos: em Raposa do Sol, apertá-lo na tela de título apaga o recorde salvo.
- O save do cartucho é automático. Jogos que salvavam numa memória com bateria no cartucho de verdade, como Retail Clerk '89 e Lock and Toad, guardam esses dados no seu navegador.
- F2 e F4 funcionam em todos. Eles tiram e restauram um retrato do console inteiro, o que ajuda nos jogos sem save próprio, como Miniplanets REMIX, que usa senhas.
Para mais sobre teclado, gamepads e onde ficam os seus saves, veja jogando jogos retrô no navegador.
Por onde começar
Para uma primeira prova do lado 8 bits, jogue Dragon Blaster, que dura exatamente um minuto, e depois Gravity Beam, se quiser algo que exige habilidade e paciência. No Mega Drive, Miniplanets REMIX mostra do que o hardware é capaz, Lock and Toad é a escolha certa para quem gosta de quebra-cabeça com ação, e Retail Clerk '89 é uma noite tranquila de leitura e passeio pelo shopping. Para entender melhor a ideia de homebrew, leia o que é homebrew?, e para ver como se fazem jogos para um console ainda mais antigo, continue com homebrew de Atari 2600.